Sumário executivo

Em todo o Cerrado, os produtores de soja estão gradualmente desvinculando a produção do desmatamento ou da conversão da terra. Com isso, a produção de soja vem, progressivamente, causando menos desmatamento e remoção da vegetação nativa. 

Nos últimos 15 anos, a área plantada de soja no Cerrado cresceu 86   , atingindo 18,83 milhões de hectares. Durante o mesmo período, a conversão da vegetação nativa no bioma para cultivo de soja diminuiu 58 por cento. Quando analisamos a safra de 2019/2020, podemos observar que 81,1 por cento foi plantada em terras desmatadas antes de 2001¹ e que, com base nos últimos três anos, a soja plantada em áreas recentemente desmatadas representa menos de 0,5 por cento do total da área plantada no Cerrado.

Isso significa que os produtores estão encontrando maneiras diferentes e mais sustentáveis de aumentar o lucro ao expandir a produção em áreas já desmatadas ou pastagens disponíveis.

Figure 1: Soja do ano-safra 2019/2020 em desmatamento por ano (prodes 2001-2019) e desmatamento anual total Bioma do Cerrado 

As barras cinza representam o desmatamento no Cerrado mapeado pelo PRODES. As barras laranja representam a quantidade de soja plantada em áreas desmatadas no Cerrado. Tanto o desmatamento quanto a quantidade de soja plantada em áreas desmatadas recentemente têm diminuído ao longo dos anos. No ano-safra 2019/2020, mais de 80 por cento (15,08 milhões de hectares) da soja no Cerrado foram plantados em terras desmatadas antes de 2001.

No entanto, ainda existem muitas oportunidades para acelerar esse progresso. A interação dos fornecedores não é linear, e a nossa pesquisa inicial sugere que, além das políticas públicas, a oferta de suporte técnico e financeiro aos produtores na base da cadeia de suprimentos respaldará a transformação necessária que pode nos ajudar a alcançar os nossos objetivos.  A alternância entre as práticas, para aumentar a produtividade de maneira sistêmica e sustentável, demandará investimentos significativos para promover capacitação e gerar soluções alternativas. Além disso, os produtores precisarão ser compensados por não fazer a conversão da terra nos casos em que tiverem autorização legal para isso. Conforme a demanda por soja (e os preços) continuam aumentando, todos os elos da cadeia de suprimentos que valorizam meios alternativos de produção de alimentos precisam unir forças a fim de viabilizar negócios de maneira ainda mais atrativa aos produtores para que preservem os seus ambientes ainda mais intensamente do que fariam considerando apenas o que é exigido por lei.

Trabalhar em parceria com produtores e demais partes interessadas da cadeia de valor continua sendo a única forma realista de prosseguir, e o SCF, organizado pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD, World Business Council For Sustainable Development), tem muito interesse em acelerar esse progresso, ainda mais considerando que suas seis empresas associadas são compradoras de uma parcela significativa da soja do Cerrado.

Uma estratégia renovada

 

Para acelerar o progresso e otimizar o modo como trabalhamos, conduzimos uma revisão estratégica nos últimos meses e consultamos as principais partes interessadas. Para ampliar esse sucesso, estamos expandindo o escopo geográfico do nosso trabalho e acrescentando mais municípios aos 25 municípios originais. Agora, o nosso escopo total representará 70 por cento da conversão recente da vegetação nativa para fins de cultivo de soja. Embora isso não signifique que cada um dos municípios da nova lista represente, necessariamente, um alto risco de desmatamento para cultivo de soja (já que muitos deles incluem grandes áreas consolidadas para o cultivo de soja que foram desmatadas há mais de 20 anos, por exemplo), esse aumento significativo dos nossos esforços nos permitirá compreender melhor toda a cadeia de suprimentos da soja e outras oportunidades de gerar engajamento positivo. No curto prazo, isso também poderá afetar os nossos indicadores de sucesso. O aumento do número de territórios avaliados significa que as nossas porcentagens de rastreabilidade das fazendas poderão diminuir temporariamente, por exemplo.

Nossa primeira frente de trabalho, o monitoramento do uso da terra, continua promovendo rastreabilidade e transparência na parte superior da cadeia de suprimentos da soja. Aproximadamente 90 por cento da soja que as empresas associadas ao SCF compram dos 25 municípios prioritários originais vem diretamente de fazendas, e a maioria desses membros rastreia pelo menos 95 por cento dessas compras diretas ao identificar a fazenda de origem por meio de polígonos. Até dezembro de 2021, esperamos mapear e identificar as fazendas originárias de pelo menos 95 por cento dos fornecedores diretos dentro do novo escopo geográfico, além de permitir a rastreabilidade individual dos fornecedores indiretos por GPS, identificando os respectivos pontos de agregação, como os silos ou as cooperativas.  Esse é um passo enorme para melhorar a interação e aumentar a rastreabilidade. Ao combinar essas informações aos dados de satélite fornecidos pelos nossos parceiros técnicos, teremos mais condições de identificar os locais de desmatamento e as respectivas causas. Poderemos, assim, abordar melhor a situação e monitorar o progresso..

Além disso, continuamos aumentando os nossos esforços de interação com as partes interessadas. Até o momento, nossos parceiros na parte superior da cadeia de suprimentos, que são a Solidaridad Brasil e a Iniciativa PCI (Produzir, Conservar e Incluir), já interagiram com mais de 100 produtores de soja no Cerrado para coletar opiniões e pontos de vista. Essa pesquisa destaca os principais motivadores dessa mudança no uso da terra e mostra que os produtores, quando diante de uma viabilidade atrativa de negócios e de incentivos relevantes, se mostram dispostos a discutir a questão do desmatamento com mais intensidade do que fariam considerando somente o que é exigido por lei.

 

Na parte inferior da cadeia, estamos construindo os alicerces de uma colaboração pragmática e de confiança com empresas produtoras de bens de consumo.  Todos nós queremos ver um progresso claro da sustentabilidade nas cadeias de suprimentos de soja e a criação de mercados em que o cultivo de soja sem desmatamento seja a regra e não a exceção. Todas as partes interessadas precisarão empenhar-se para colaborar e, sobretudo, alocar recursos para o alcance dos nossos objetivos importantes.

 A terceira frente de trabalho, a transformação das paisagens, se baseará em informações obtidas de atividades de interação com as partes interessadas e implementará soluções no local. Com base nos dados precisos e na interação entre todos os elos da cadeia de valor, nosso objetivo é transformar as paisagens de maneira holística. A interação com todas as partes interessadas busca gerar confiança e subsistência sustentável, além de reduzir o desmatamento. 

Esse objetivo está dentro do nosso escopo coletivo mais do que nunca. Agora, o foco é acelerar o nosso progresso no Mato Grosso e na Bahia, onde um levantamento do perfil dos produtores foi concluído, além da execução de um projeto-piloto de portfólio de soluções nas duas regiões. No próximo ano, o foco é expandir o trabalho, tanto com os produtores quanto com os consumidores, para aplicar soluções específicas com relação à paisagem nas outras regiões prioritárias.